Para
se entender o que ocorreu com a Iugoslávia nos últimos
anos,
é preciso conhecer um pouco de sua história.
A
Iugoslávia é uma
criação do nacionalismo sérvio e das
guerras que sacudiram a Península Balcânica.
A
Sérvia
foi um principado submetido ao Império Otomano até
1817, quando alcançou uma autonomia política
limitada, sob a proteção da Rússia.
Nesta época, começava a dolorosa decadência
turca e a região balcânica atraía a cobiça
das potências européias (Rússia, Inglaterra,
Áustria-Hungria). Durante o século XIX, o territórios
sob domínio otomano (turco) despedaçaram-se
gerando países independentes, protegidos por uma ou
outra das potências rivais. A Sérvia aproveitando-se
dos conflitos russo-turcos, proclamou sua independência
em 1878 e ampliou seu território.
Nas
vésperas da I Guerra Mundial, o Império Otomano
estava reduzido
às margens dos Estreitos de Bósforo e Dardanelos
e a Áustria-Hungria tinha anexado à Província
da Bósnia-Herzegovina e a Croácia, reivindicadas
pela Sérvia. Os nacionalistas sérvios agruparam-se
sob a bandeira do pan-eslavismo, ou seja, da unidade dos
povos eslavos das Balcãs.
A
I Guerra Mundial explodiu quando o arquiduque do Império Áustro-Húngaro
Francisco Ferdinando foi assassinado por um nacionalista
sérvio na cidade de Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina.
A Sérvia, atacada pelo Império Áustro-Húngaro,
recebeu o apoio da Rússia. A Alemanha perfilou-se
com os austríacos; a Inglaterra e a França
com os russos.
Com
a derrota das potências centrais (Império
Alemão, Império Austro-Húngaro e Otomano)
e os tratados de paz redesenharam o mapa das Balcãs
e da Europa, originando entre outros, o Reino dos Sérvios,
Croatas e Eslovenos (a chamada "Grande Sérvia"),
que recebeu territórios do Império Austro-Húngaro
e o Reino de Montenegro. Em 1929, o Reino passa a se chamar
Iugoslávia.
Fruto
da luta nacional dos sérvios contra dois impérios
(Austro-Húngaro e Otomano), a Iugoslávia
constitui um Estado multinacional sob a hegemonia sérvia.
Nela vivem ainda croatas, eslovenos, montenegrinos e minorias
macedônias e albanesas. Aos olhos destes povos, os
sérvios transformaram-se em um novo poder imperialista.
Após
a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial,
os comunistas liderados por Josif Broz Tito tomaram o poder
e proclamaram a república. Procurando acalmar as
tensões nacionais, organizavam o Estado sob forma
de federação, formado por seis Repúblicas.
A
federação
manteve-se unida até 1980, quando morre Tito, que
governou sob pulso forte do regime comunista. A desagregação
dos regimes comunistas do leste Europeu (1989/90) aprofundou
a crise e ateou fogo no separatismo em 1990.
Os
velhos conflitos nacionais, que foram o estopim da Primeira
Guerra Mundial, ressurgiram no caldeirão de nacionalidades
da Península Balcânica, resultando na Guerra
da Bósnia.
OS
PORQUÊS DA LUTA NA BÓSNIA
No
mês de junho de 1995, após 3 anos de lutas
que já
fizeram mais de 200.000 mortos, sérvios e bósnios
largaram os fuzis. Pela primeira vez, estão tentando
resolver, sem armas, o mais grave conflito gerado pela dissolução
da antiga Iugoslávia, em 1991. Uma mistura explosiva
de etnias e religiões, a Iugoslávia havia nascido
em 1918, criada pela união de seis repúblicas
até então sob domínio do Império
Austro-Húngaro: Croácia, Sérvia, Bósnia
Hezegovina, Macedônia, Eslovênia e Montenegro.
O
país
se manteve coeso, ao longo de sua história recente,
devido ao carisma de seu presidente Josip Broz Tito, que
morreu em 1980. Nove anos depois, começou o desmoronamento
do bloco socialista do leste europeu. Movimentos de independência
brotaram em vários países deste boloco e,
a Iugoslávia, embora não fizesse parte desse
bloco diretamente, foi atingida pela onda. Duas de suas
repúblicas federadas, a Croácia e a Eslovênia,
declararam independência em 1991.Como resposta, o
governo federal mandou invadir a eslovênia. Não
teve sucesso e foi forçado a aceitar uma trégua.
Mas logo em seguida, a Sérvia violou o cessar-fogo
e atacou a Croácia, a outra república que
havia declarado sua independência, a pretexto de
defender a unidade iugoslava.
O
pretexto da Sérvia para atacar a Croácia não
convenceu e ela passou a ser acusada de tentar expandir
seus territórios. A situação ficou
ainda pior quando a Sérvia atacou a Bósnia,
a mais heterogênea das repúblicas federadas
da Iugoslávia. Sua população é constituída
por bósnios (muçulmanos), croatas (católicos)
e sérvios. Estes últimos representam um terço
do total da população. Tamanha divergência
entre as etnias cria um clima favorável
à luta armada e, se a disputa com a Croácia
logo foi resolvida, assegurando independência a este
país, em 1992, a guerra na Bósnia-Herzegovina
se intensificou, desde então. E o cessar fogo, agora,
não é garantia de que os combates tenham terminado
definitivamente.
As
negociações buscam um meio de repetir a Bósnia
de acordo com as etnias que ali vivem dentro de suas fronteiras.
Durante a guerra, os sérvios passaram a controlar
75% do território bósnio. Mas as outras parcelas
da população não aceitaram isso: reclamaram
o controle de pelo menos 51% do território bósnio.
Assim, os sérvios ficariam com os 49% restantes.
Para
entender melhor a origem de tantos combates, entre povos
etnicamente tão próximos, todos eslavos, é preciso
recuar 1.500 anos no tempo.
1.Bizantinos
Versus Católicos:
A
História é antiga,
começou em 476, quando o Império Romano do
Ocidente, caiu nas mãos dos bárbaros. Deu-se
assim uma ruptura com o Império Romano do Oriente,
também mais tarde chamado de Bizantino. A linha
que separava estes dois mundos passava bem ao centro do
que seria a Iugoslávia, no futuro. Ela dividiu os
cristãos: romanos de um lado, ortodoxos do outro.
A separação chegou ao ápice com o
Cisma de 1054, no qual definitivamente a Igreja ortodoxa
se indispôs com os católicos romanos e seu
Papa. Ainda hoje, essa velha cizânia diferencia os
croatas católicos dos sérvios ortodoxos.
Outra fonte de atrito permanente foi a política
de aproximação entre húngaros e bósnios.
Bombardeada ao longo dos séculos por sérvios
e croatas, essa aliança foi iniciada no ano de 1100
pelo rei Bodin, da Bósnia.
2.
Apogeu e Queda da Sérvia
No
século VII, tribos eslavas vindas da Polônia
e Ucrânia, invadiram a região dos balcãs,
onde ficaria a Iugoslávia. Eslovenos e croatas instalaram-se
no norte. Os sérvios se aproximaram dos bizantinos,
no sul, onde hoje é Kossovo. Converteram-se à
religião ortodoxa e assim, começou a ascensão
da Sérvia. Sob o reinado de Etienne Dounchan (1331
-1355), ela conquistou uma parte da Grécia a da Bósnia
atuais. Dounchan declarou-se imperdor das terras conquistadas
e quis virar chefe de uma igreja sérvia, independente
dos outros ortodoxos, que nunca chegou a criar. Em 1389,
veio a queda: a Sérvia foi esmagada pelos turcos,
perdendo sua independência por cinco séculos.
3.
Invasões Estrangeiras
Nos
séculos XI e XII, venezianos e húngaros fizeram
pesadas investidas sobre os balcãs, ocupando boa
parte da Croácia. Mas a invasão mais importante
ocorreu no século XVI, quando os turcos subjulgaram
a Sérvia, a Macedônia e a Bósnia. Logo
depois, os bósnios aliaram-se aos invasores e converteram-se
ao islamismo. Foi o primeiro passo para que toda a região
fosse integrada ao Império Otomano, sob a Turquia.
E assim ficou até
1912. Nos anos seguintes, os turcos foram afastados da região.
Consequentemente, as repúblicas balcânicas se
integram ao Império Áustro-Húngaro que,
em 1908, havia anexado a Bósnia. A tensão cresceu
até chegar a um ponto de ruptura. Em 1914, o arquiduque
Francisco Ferdinando, herdeiro do trono
Áustro-Húngaro, foi assassinado por um sérvio,
em Sarajevo, capital da Bósnia. A ameaça de
retaliação imperial, contestada por outra potências
européias, foi o estopim da Primeira Guerra Mundial.
E quando ela terminou, em 1918, os termos do acordo de paz
previam a criação do reino dos sérvios,
croatas e eslovenos. Depois, em 1945, o país tornou-se
uma república federativa socialista, a Iugoslávia.
4.
Coquetel de Tensões
A
situação
criada pela guerra civil que teve início em 1991
dá uma medida das dificuldades dos negociadores
que tentaram por ordem na região:
- SÉRVIOS - eslavos,
cristãos ortodoxos, dominam Kossovo (região
de maioria albanesa), Voivodina (maioria húngara,
romana e croata) e, em dois anos de guerra, conquistaram
75% da Bósnia e uma pequena parte da croácia.
A Rússia, Grécia e França são
seus aliados;
- CROATAS - eslavos,
católicos
tomaram uma parte do território bósnio,
mas perde algumas áreas. A Alemanha e a Itália
são aliados tradicionais;
- ESLOVENOS - eslavos
alemães
ocupam um território etnicamente homogêneo
e não se envolveram no conflito;
- BÓSNIOS - muçulmanos,
vivem também no Sul da Sérvia. Embora conservem
Sarajevo, são os perdedores da guerra. A Turquia
e países árabes são seus aliados
em potencial;
- MONTENEGRINOS -
muito próximos
dos sérvios, são aliados naturais dos mesmos;
- MACEDÔNIOS - aglutinados em
um pequeno país que reúne macedônios,
albaneses, turcos, romenos, sérvios e bósnios.
As
repúblicas não tem a mesma força econômica.
De acordo com o grau de desenvolvimento, elas podem ser
colocadas na seguinte ordem: Eslovênia, Croácia,
Nova Federação Iugoslava (Sérvia e
Montenegro), Bóznia-Herzegovina e Macedônia.
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