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Site Atualizado em 17/04/2008
Os Eslavos do Sul
Vitor H. Garaeis

Para se entender o que ocorreu com a Iugoslávia nos últimos anos, é preciso conhecer um pouco de sua história.

A Iugoslávia é uma criação do nacionalismo sérvio e das guerras que sacudiram a Península Balcânica.

A Sérvia foi um principado submetido ao Império Otomano até 1817, quando alcançou uma autonomia política limitada, sob a proteção da Rússia. Nesta época, começava a dolorosa decadência turca e a região balcânica atraía a cobiça das potências européias (Rússia, Inglaterra, Áustria-Hungria). Durante o século XIX, o territórios sob domínio otomano (turco) despedaçaram-se gerando países independentes, protegidos por uma ou outra das potências rivais. A Sérvia aproveitando-se dos conflitos russo-turcos, proclamou sua independência em 1878 e ampliou seu território.

Nas vésperas da I Guerra Mundial, o Império Otomano estava reduzido às margens dos Estreitos de Bósforo e Dardanelos e a Áustria-Hungria tinha anexado à Província da Bósnia-Herzegovina e a Croácia, reivindicadas pela Sérvia. Os nacionalistas sérvios agruparam-se sob a bandeira do pan-eslavismo, ou seja, da unidade dos povos eslavos das Balcãs.

A I Guerra Mundial explodiu quando o arquiduque do Império Áustro-Húngaro Francisco Ferdinando foi assassinado por um nacionalista sérvio na cidade de Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina. A Sérvia, atacada pelo Império Áustro-Húngaro, recebeu o apoio da Rússia. A Alemanha perfilou-se com os austríacos; a Inglaterra e a França com os russos.

Com a derrota das potências centrais (Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Otomano) e os tratados de paz redesenharam o mapa das Balcãs e da Europa, originando entre outros, o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (a chamada "Grande Sérvia"), que recebeu territórios do Império Austro-Húngaro e o Reino de Montenegro. Em 1929, o Reino passa a se chamar Iugoslávia.

Fruto da luta nacional dos sérvios contra dois impérios (Austro-Húngaro e Otomano), a Iugoslávia constitui um Estado multinacional sob a hegemonia sérvia. Nela vivem ainda croatas, eslovenos, montenegrinos e minorias macedônias e albanesas. Aos olhos destes povos, os sérvios transformaram-se em um novo poder imperialista.

Após a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, os comunistas liderados por Josif Broz Tito tomaram o poder e proclamaram a república. Procurando acalmar as tensões nacionais, organizavam o Estado sob forma de federação, formado por seis Repúblicas.

A federação manteve-se unida até 1980, quando morre Tito, que governou sob pulso forte do regime comunista. A desagregação dos regimes comunistas do leste Europeu (1989/90) aprofundou a crise e ateou fogo no separatismo em 1990.

Os velhos conflitos nacionais, que foram o estopim da Primeira Guerra Mundial, ressurgiram no caldeirão de nacionalidades da Península Balcânica, resultando na Guerra da Bósnia.

OS PORQUÊS DA LUTA NA BÓSNIA 

No mês de junho de 1995, após 3 anos de lutas que já fizeram mais de 200.000 mortos, sérvios e bósnios largaram os fuzis. Pela primeira vez, estão tentando resolver, sem armas, o mais grave conflito gerado pela dissolução da antiga Iugoslávia, em 1991. Uma mistura explosiva de etnias e religiões, a Iugoslávia havia nascido em 1918, criada pela união de seis repúblicas até então sob domínio do Império Austro-Húngaro: Croácia, Sérvia, Bósnia Hezegovina, Macedônia, Eslovênia e Montenegro.

O país se manteve coeso, ao longo de sua história recente, devido ao carisma de seu presidente Josip Broz Tito, que morreu em 1980. Nove anos depois, começou o desmoronamento do bloco socialista do leste europeu. Movimentos de independência brotaram em vários países deste boloco e, a Iugoslávia, embora não fizesse parte desse bloco diretamente, foi atingida pela onda. Duas de suas repúblicas federadas, a Croácia e a Eslovênia, declararam independência em 1991.Como resposta, o governo federal mandou invadir a eslovênia. Não teve sucesso e foi forçado a aceitar uma trégua. Mas logo em seguida, a Sérvia violou o cessar-fogo e atacou a Croácia, a outra república que havia declarado sua independência, a pretexto de defender a unidade iugoslava.

O pretexto da Sérvia para atacar a Croácia não convenceu e ela passou a ser acusada de tentar expandir seus territórios. A situação ficou ainda pior quando a Sérvia atacou a Bósnia, a mais heterogênea das repúblicas federadas da Iugoslávia. Sua população é constituída por bósnios (muçulmanos), croatas (católicos) e sérvios. Estes últimos representam um terço do total da população. Tamanha divergência entre as etnias cria um clima favorável à luta armada e, se a disputa com a Croácia logo foi resolvida, assegurando independência a este país, em 1992, a guerra na Bósnia-Herzegovina se intensificou, desde então. E o cessar fogo, agora, não é garantia de que os combates tenham terminado definitivamente.

As negociações buscam um meio de repetir a Bósnia de acordo com as etnias que ali vivem dentro de suas fronteiras. Durante a guerra, os sérvios passaram a controlar 75% do território bósnio. Mas as outras parcelas da população não aceitaram isso: reclamaram o controle de pelo menos 51% do território bósnio. Assim, os sérvios ficariam com os 49% restantes.

Para entender melhor a origem de tantos combates, entre povos etnicamente tão próximos, todos eslavos, é preciso recuar 1.500 anos no tempo.

1.Bizantinos Versus Católicos:

A História é antiga, começou em 476, quando o Império Romano do Ocidente, caiu nas mãos dos bárbaros. Deu-se assim uma ruptura com o Império Romano do Oriente, também mais tarde chamado de Bizantino. A linha que separava estes dois mundos passava bem ao centro do que seria a Iugoslávia, no futuro. Ela dividiu os cristãos: romanos de um lado, ortodoxos do outro. A separação chegou ao ápice com o Cisma de 1054, no qual definitivamente a Igreja ortodoxa se indispôs com os católicos romanos e seu Papa. Ainda hoje, essa velha cizânia diferencia os croatas católicos dos sérvios ortodoxos. Outra fonte de atrito permanente foi a política de aproximação entre húngaros e bósnios. Bombardeada ao longo dos séculos por sérvios e croatas, essa aliança foi iniciada no ano de 1100 pelo rei Bodin, da Bósnia.

2. Apogeu e Queda da Sérvia

No século VII, tribos eslavas vindas da Polônia e Ucrânia, invadiram a região dos balcãs, onde ficaria a Iugoslávia. Eslovenos e croatas instalaram-se no norte. Os sérvios se aproximaram dos bizantinos, no sul, onde hoje é Kossovo. Converteram-se à religião ortodoxa e assim, começou a ascensão da Sérvia. Sob o reinado de Etienne Dounchan (1331 -1355), ela conquistou uma parte da Grécia a da Bósnia atuais. Dounchan declarou-se imperdor das terras conquistadas e quis virar chefe de uma igreja sérvia, independente dos outros ortodoxos, que nunca chegou a criar. Em 1389, veio a queda: a Sérvia foi esmagada pelos turcos, perdendo sua independência por cinco séculos.

3. Invasões Estrangeiras

Nos séculos XI e XII, venezianos e húngaros fizeram pesadas investidas sobre os balcãs, ocupando boa parte da Croácia. Mas a invasão mais importante ocorreu no século XVI, quando os turcos subjulgaram a Sérvia, a Macedônia e a Bósnia. Logo depois, os bósnios aliaram-se aos invasores e converteram-se ao islamismo. Foi o primeiro passo para que toda a região fosse integrada ao Império Otomano, sob a Turquia. E assim ficou até 1912. Nos anos seguintes, os turcos foram afastados da região. Consequentemente, as repúblicas balcânicas se integram ao Império Áustro-Húngaro que, em 1908, havia anexado a Bósnia. A tensão cresceu até chegar a um ponto de ruptura. Em 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Áustro-Húngaro, foi assassinado por um sérvio, em Sarajevo, capital da Bósnia. A ameaça de retaliação imperial, contestada por outra potências européias, foi o estopim da Primeira Guerra Mundial. E quando ela terminou, em 1918, os termos do acordo de paz previam a criação do reino dos sérvios, croatas e eslovenos. Depois, em 1945, o país tornou-se uma república federativa socialista, a Iugoslávia.

4. Coquetel de Tensões

A situação criada pela guerra civil que teve início em 1991 dá uma medida das dificuldades dos negociadores que tentaram por ordem na região:

  • SÉRVIOS - eslavos, cristãos ortodoxos, dominam Kossovo (região de maioria albanesa), Voivodina (maioria húngara, romana e croata) e, em dois anos de guerra, conquistaram 75% da Bósnia e uma pequena parte da croácia. A Rússia, Grécia e França são seus aliados;
  • CROATAS - eslavos, católicos tomaram uma parte do território bósnio, mas perde algumas áreas. A Alemanha e a Itália são aliados tradicionais;
  • ESLOVENOS - eslavos alemães ocupam um território etnicamente homogêneo e não se envolveram no conflito;
  • BÓSNIOS - muçulmanos, vivem também no Sul da Sérvia. Embora conservem Sarajevo, são os perdedores da guerra. A Turquia e países árabes são seus aliados em potencial;
  • MONTENEGRINOS - muito próximos dos sérvios, são aliados naturais dos mesmos;
  • MACEDÔNIOS - aglutinados em um pequeno país que reúne macedônios, albaneses, turcos, romenos, sérvios e bósnios.

As repúblicas não tem a mesma força econômica. De acordo com o grau de desenvolvimento, elas podem ser colocadas na seguinte ordem: Eslovênia, Croácia, Nova Federação Iugoslava (Sérvia e Montenegro), Bóznia-Herzegovina e Macedônia.

 
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