I
Numa bela tarde de verão, por volta de 1838, um circunspecto
e pensativo cavalheiro Inglês, em férias no
campo, fazia o seu passeio diário por uma estrada
estreita, rodeada de arbustos perfumados. Tudo era paz e
tranqüilidade. Derrepente, ao terminar de contornar
uma curva em cotovelo, ouviu vozes alteradas, em discussão
feroz. Curioso, escondeu-se atrás de uma árvore,
para poder observar melhor a cena de onde provinha o vozerio.
Era um mensageiro do correio, tentando entregar uma carta
a uma jovem e robusta camponesa, que se recusava a assinar
o recebimento da correspondência, sem antes ver o envelope.
Relutante, o mensageiro acabou tirando a carta da bolsa,
deixando a moça pegá-la. A moça olhou
bem de um lado e de outro, revirando o envelope agilmente
nas mãos. Passados uns instantes, devolveu-a ao homem,
dizendo não desejar receber a tal carta. O carteiro
ficou furioso, insistindo e a jovem mais ainda em sua teima.
A discussão tornava-se cada vez mais acalorada, quando
o velho senhor resolveu intervir, perguntando à camponesa
o porquê
de sua recusa. Receosa, diante de um nobre tão bem
trajado e parecendo muito importante, a jovem mudou de tom
e torcendo nervosamente as pontas do grande avental encardido,
começou a lamentar-se, dizendo não ter dinheiro
para pagar pela entrega da carta. Penalizado, o cavalheiro
ofereceu-se para dar-lhe a quantia , e assim terminar de
vez o lamentável episódio.
O carteiro, não mais se contendo exclamou enraivecido:
Senhor!
É um embuste. É sempre assim com esta gente.
O nobre cavalheiro não imagina o quanto é difícil
lidar com estes campônios miseráveis! Olham
e olham os envelopes e jamais aceitam as cartas. Volto todos
os dias com sacola cheia, tal e qual saí da agência
na cidade. O meu chefe já não agüenta
mais devolver para Londres, todas as cartas que chegam nesta
região e, receber de volta as recriminações
de seus superiores. Depois é
comigo que ele briga!
Fingindo não ter dado ouvidos ao mensageiro, voltou-se
o senhor novamente para a jovem, insistindo em pagar pela
carta. Afinal a moça acabou aceitando. Após
entregar a moeda ao carteiro, que seguiu seu caminho satisfeito,
o cavalheiro pediu bondosamente para camponesa que lhe dissesse
a verdade. Envergonhada, corando até as raízes
dos desgrenhados cabelos louros, a moça contou ser
muito pobre mesmo e não poder dispor do valor da tarifa
cobrada pelo agente da cidade. O noivo estava trabalhando
em Londres, a fim de juntar algum dinheiro para poderem casar.
Ela também precisava economizar cada penny. Mas, a
saudade era muita e maior ainda a preocupação
que sentiam um pelo outro. Assim, combinaram um código
especial, feito com determinados sinais postos no envelope,
na frente e no verso, dependendo da posição,
já diziam tudo, não havendo necessidade alguma
de abri-lo, para saber o que continha a carta. Esta, na verdade,
não passava de uma folha de papel em branco, sempre
reaproveitada pelo rapaz, para quem era devolvida. Disse
ainda, não ser só ela e o noivo que enganavam
o carteiro, ali naquela região, todos faziam assim.
O cavalheiro desandou numa tremenda gargalhada, afagou o
rosto da moça e seguiu seu caminho satisfeito, esfregando
as mãos, resolvido a tomar providências, assim
que terminassem as férias. Ainda teria um pouco de
tempo para pensar e encontrar uma solução.
Afinal, o grande mistério estava desvendado!!!
II
Antes da criação do
selo postal, era o destinatário quem pagava a
tarifa postal, que variava muito, conforme a distância
percorrida. O destinatário não podia ser
obrigado a receber e pagar a tarifa. Assim, havia sempre
uma devolução muito grande de correspondência
rejeitada, ocasionando o prejuízo dos correios,
com despesas enormes para manter agências na maior
parte das cidades.
O nobre cavalheiro do fato narrado a cima, era sir
Rowland Hill, dirigente geral do correio britânico.
Diante dos fatos tão bem expostos na engraçada
ocorrência, tomou consciência da necessidade
urgente de uma reforma radical no método operacional
dos correios. A melhor forma encontrada, para fazer
o remetente pagar pelo transporte e entrega da correspondência,
foi a de fixar na carta uma espécie de recibo,
indicando ter sido paga a tarifa postal. Assim, no
dia 6 de maio de 1840, o selo postal nasceu na Inglaterra.
Foram emitidos dois selos: o Penny Black, assim chamado
por ser um selo preto, valendo 1 penny, na época,
a menor fração da Libra, o dinheiro inglês
e o Two Pence Blue, um selo azul de dois pences. Ambos
traziam impressa a efigie da Rainha Victória,
quando jovem. O desenho foi feito por Henry Corbould,
inspirado em uma medalha gravada por Willian Wyon e
as gravações usadas para fazer os selos,
foram feitas por Charles e Frederik Heath. A impressão
foi feita pela firma Perkins, bacon and Petch em talho-doce.
O sucesso dos primeiros selos postais foi grande. O
aumento considerável da receita dos correios
ingleses serviu de estímulo para os outros países
adotarem o mesmo sistema de cobrança de tarifa
postal. Imediatamente após as primeiras emissões
da Inglaterra, o cantão suisso de Geneve e o
de Zurique também lançaram seus selos,
porém apenas para circulação interna
nos cantões. O segundo país a emitir
selos postais, foi o Brasil , em 1843, pondo em circulação
três selos, com grandes algarismos gravados em
preto, 30, 60 e 90, representando o valor em réis
dos mesmos, os famosos Olhos de Boi,
como foram apelidados.
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