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Site Atualizado em 17/04/2008
HMS Warspite: Da Jutlândia à Normândia
Carlos David S. Aarão Reis (Rio de Janeiro)

Um dos nomes mais antigos e tradicionais, dados a navios da Royal Navy (a Marinha Real Britânica) é o de HMS (Her Majesty's Ship, navio de Sua Majestade) Warspite. No século XVI, já existia um War Sprite, Waespight ou Warspite, galeão da Marinha Elizabeteana, construído em 1596 e nau-capitânea de Sir Walter Raleigh. Na época atual, um submarino movido a energia nuclear da classe Valiant, lançado em 1965, recebeu o mesmo nome e ainda permanecia no serviço ativo na segunda metade da década de 1980.

No entanto, interessa-nos mais de perto o oitavo e penúltimo navio de guerra com a mesma denominação, o encouraçado HMS Warsipte, da classe Queen Elizabeth, deslocando 27.500 toneladas, o qual serviu com distinção nas duas guerras mundiais (ou guerra civil européia de 1914 a 1945, interrompida pela trégua de 1918 a 1939, segundo alguns historiadores).

Ao iniciar-se a I Guerra Mundial, o navio fora lançado ao mar há pouco tempo, 26 de novembro de 1913, desempanhando papel importante no maior combate naval do conflito. A 31 de maio de 1916, travou-se a Batalha da Jutlândia (ou Skagerrak para os alemães) entre a Grand Fleet britânica e a Esquadra de Alto Mar germânica. O Warspite integrava então o quinto Esquadrão de Batalha, quando seu leme emperrou e ele fez um círculo completo perto de outro navio, o HMS Warrior, atacado por encouraçados alemães. Com isso recebeu 27 disparos do inimigo, mas salvou o Warrior da destruição. Gravemente danificado e fazendo água, conseguiu rumar para a Grã-Bretanha, onde chegou a salvo no dia seguinte.

Depois da guerra, entre 1934 e 1937, o encouraçado passou por grande modernização. Aumentou-se sua proteção adicional, instalando-se hangares para três aviões, caldeiras novas e canhões antiaéreos.

Ao eclodir a II Guerra Mundial, o Warspite encontrava-se no Mediterrâneo, transferindo-se no ano seguinte para a Home Fleet britânica e participando da campanha da Noruega. A 13 de abril de 1940, acompanhado de nove destróieres, subiu o fiorde de Ofot, sob o comando do Vice-Almirante Whitworth, para destruir um esquadrão de destróieres alemães. A posição dificilmente poderia ser considerada ideal para um encouraçado, que corria o risco de encalhar ou ser torpedeado (Preston, Encoraçados, p. 49). Mesmo assim os canhões da força afundaram oito destróeires e um submarino (posto a pique por um hidroavião Swordfish do encouraçado) alemães, no combate conhecido como Segunda Batalha de Narvik.

A importância das operações em águas norueguesas, especialmente em Narvik, revelar-se-ia nos meses posteriores. A Marinha alemã, já de proporções modestas, perdera um cruzador pesado, dois cruzadores leves, dez destróieres (dos vinte e um com os quais iniciara a guerra) e quatro submarinos, além de quatro navios maiores danificados e imobilizados nos estaleiros. Quando se cogitou da invasão da Grã Bretanha, ainda em 1940 e depois da queda da França, a Alemanha não dispunha dos meios navais indispensáveis a uma operação anfíbia daquele porte.

Entretanto, a maior contribuição do Warspite para a vitória aliada e derrota do Eixo ocorreu no teatro do Mediterrâneo. Ali obteria seus maiores sucessos, enfrentando a esquadra italiana e tomando parte em todas as operações importantes.

Em julho de 1940, tanto a frota britânica como a italiana estavam no mar, protegendo comboios, quando a primeira avistou a segunda. No encontro que se seguiu, conhecido como Batalha da Calábria (ou de Punta Stilo, como denominado pelos italianos) o Warspite travou um duelo de artilharia com dois encouraçados italianos, o Giulio Cesare e o Cavour e seus canhões atingiram o alvo (o Giulio Cesare) a 26.400 jardas (ou 25.000) de distância). Estabeleceu-se assim um recorde ainda de pé - a maior distância em que canhões navais acertaram um alvo móvel (Preston, op. Cit., p.50).

No ano seguinte, a Batalha do Cabo Matapan (ou da Ilha Gaudo, para os italianos), situado ao sul da Grécia, nos dias 28 e 29 de março, significaria provavelmente o maior combate naval favorável à Royal Navy no mediterrâneo. A batalha se originou de uma tentativa da esquadra italiana de interceptar navios de suprimento para tropas britânicas na Grécia. Como os códigos alemães e italianos tinham sido decifrados, o Almirante Andrew Cunningham resolveu atacar a frota italiana. Inicialmente, aeronaves do porta-aviões Formidable colocaram dois torpedos no novo encouraçado italiano Vittorio Veneto, que conseguiu escapar. Mas, em seguida, os encouraçados Warspite, Barham e Valiant afundaram dois cruzadores pesados italianos (Fiume e Zara) e destróieres britânicos abordaram e puseram a pique um terceiro (o Pola). Os italianos perderam ainda dois contratorpedeiros. As baixas britânicas resumiram-se a um piloto morto e um avião abatido.

Embora não tenha sido decisiva, a vitória de Matapan acarretou duas consequências importantes. Por um lado, representou enorme incentivo para o moral britânico. E, por outro, a marinha italiana tornou-se mais prudente do que já era e, por excesso de cautela, desperdiçou oportunidade de atacar a Royal Navy, quando essa esta sujeita a constantes bombardeios durante a batalha por Creta.

Em maio de 1941, os alemães iniciaram a invasão dessa ilha, principalmente por tropas aerotransportadas. Mais uma vez encontrava-se o Warspite na linha de frente, até ser atingido por uma bomba.

No ano seguinte, deixou temporariamente o teatro de operações do Mediterrâneo, transferido para o Oceano Índico. Por algum tempo, serviu no Grupo A da Esquadra Oriental, comandada pelo Almirante Somerville.

Em 1943, o encouraçado voltou ao Mediterrâneo, fornecendo apoio aos desembarques anfíbios na Sicília. Depois do armistício pedido pela Itália, coube-lhe escoltar o grosso da esquadra italiana até a Ilha de Malta. No mesmo mês, quando bombardeava posições inimigas em Salerno, foi nova e seriamente avariado por uma bomba planadora alemã, que explodiu junto a seu casco. A água invadiu suas caldeiras e precisou-se rebocá-lo. Mesmo assim passou pelo Estreito de Messina, chegando a Malta, de onde ganhou a Grã Bretanha.

O Warspite só podia operar com três eixos, perdendo assim olugar na linha de batalha. Sua carreira, longa, vitoriosa e gloriosa terminara no Mediterrâneo, mas não na guerra. A 6 de julho de 1944, no Dia D, o veterano da Jutlândia e de Matapan apoiava os desembarques aliados na Normandia, amaciando as defesas costeiras alemãs, ou seja, bombardeando as baterias do litoral. A ação dos encouraçados e cruzadores, naquela oportunidade, mostrou-se decisiva para o êxito da operação anfíbia. Com efeito, a vantagem do bombardeio naval é que ele pode ser sustentado enquanto a munição durar e sua nartureza metódica e repetitiva tem um efeito pior sobre o moral inimigo que os ataques aéreos ocasionais, por mais devastadores que sejam (Preston, Cruzadores, p. 56). Provar-se-ia issso nos dias posteriores ao Dia D. No dia 10 de junho, um ataque britânico foi apoiado pelos canhões do encouraçado Nelson, que, adernando para aumentar o alcance das peças, atingia alvos a 30 Km. No dia 11, o excelente tiro dos navios quebrou o retorno ofensivo dos alemães (Cartier, Raymond, A Segunda Guerra Mundial, v.2, p. 564).

Em novembro, o Warspite voltou ao combate, protegendo os desembarques em Flushing, possibilitando a tomada de Walcheren, nos acessos para Antuérpia.

Com o fim do conflito na Europa, o velho encouraçado deixou o serviço ativo. Pode-se avaliar sua contribuição para a vitória aliada pelo número de condecorações: das vinte e cinco distinções recebidas desde 1596, quatorze o foram durante a II Guerra Mundial.

Conservá-lo, convertendo-o em museu, como antes ocorrera com o HMS Victory de Nelson, ou como sucedeu depois com o cruzador HMS Belfast, teria sido apropriada homenagem ao veterano navio, sua tripulação de 1.124 homens e à Royal Navy, responsável pela segurança, honra e bem-estar do Reino (como se afirma nos Artigos de Guerra de 1666). Mas, lamentavelmente, vendeu-se o navio em 1946. Quando rebocado, encalhou na costa da Cornualha, sendo ali mesmo desmontado. Parecia que o veterano encouraçado se recusava a ser transformado em sucata.

Filatelicamente, o Warspite figura em dois selos da Grã-Bretanha: o primeiro, em série de cinco valores a respeito do patrimônio marítimo britânico, do ano de 1982, ao lado da efígie do Almirante Cunningham (Yvert, 1051); o segundo, em série de 1994, também com cinco valores, comemorativa do desembarque aliado na Normandia (Yvert, 1763), com o encouraçado amaciando as defesas costeiras. Até o ano de 1995, apenas um outro navio de guerra britânico mereceu a honra de constar duas vezes em selos da Grã-Bretanha, o Victory de Lord Nelson (Yvert, 256, de 1951 e 1049, na série mencionada sobre patrimônio marítimo).

Em selos de outros países, também se encontra o velho encouraçado, como no de Gibraltar (700 do catálogo Yvert), lembrando os 50 anos do desembarque na Normandia, parte de série emitida em folha. Gana e Tanzania, na mesma ocasião, prestaram homenagem ao Warspite (respectivamente, Yvert 1634 e 1638). Nesses selos, o veterano também aparece disparando seus canhões no curso do mesmo desembarque.

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