Um
dos nomes mais antigos e tradicionais, dados a navios
da Royal Navy (a Marinha Real
Britânica) é o de
HMS (Her Majesty's
Ship, navio de Sua Majestade) Warspite. No século
XVI, já existia um War Sprite, Waespight ou
Warspite, galeão da Marinha Elizabeteana, construído
em 1596 e nau-capitânea de Sir Walter Raleigh.
Na época atual, um submarino movido a energia
nuclear da classe Valiant, lançado em
1965, recebeu o mesmo nome e ainda permanecia no serviço
ativo na segunda metade da década de 1980.
No
entanto, interessa-nos mais de perto o oitavo e penúltimo
navio de guerra com a mesma denominação,
o encouraçado HMS Warsipte, da classe Queen
Elizabeth, deslocando 27.500 toneladas, o qual
serviu com distinção nas duas guerras
mundiais (ou guerra civil européia de 1914 a
1945, interrompida pela trégua de 1918 a 1939,
segundo alguns historiadores).
Ao
iniciar-se a I Guerra Mundial, o navio fora lançado
ao mar há
pouco tempo, 26 de novembro de 1913, desempanhando papel
importante no maior combate naval do conflito. A 31 de
maio de 1916, travou-se a Batalha da Jutlândia
(ou Skagerrak para os alemães) entre a Grand
Fleet britânica e a Esquadra de Alto Mar germânica.
O Warspite integrava então o quinto Esquadrão
de Batalha, quando seu leme emperrou e ele fez um círculo
completo perto de outro navio, o HMS Warrior,
atacado por encouraçados alemães. Com isso
recebeu 27 disparos do inimigo, mas salvou o Warrior da
destruição. Gravemente danificado e fazendo água,
conseguiu rumar para a Grã-Bretanha, onde chegou
a salvo no dia seguinte.
Depois
da guerra, entre 1934 e 1937, o encouraçado
passou por grande modernização. Aumentou-se
sua proteção adicional, instalando-se
hangares para três aviões, caldeiras novas
e canhões antiaéreos.
Ao
eclodir a II Guerra Mundial, o Warspite encontrava-se
no Mediterrâneo, transferindo-se no ano seguinte
para a Home Fleet britânica e participando
da campanha da Noruega. A 13 de abril de 1940, acompanhado
de nove destróieres, subiu o fiorde de Ofot,
sob o comando do Vice-Almirante Whitworth, para destruir
um esquadrão de destróieres alemães.
A posição dificilmente poderia ser considerada
ideal para um encouraçado, que corria o risco
de encalhar ou ser torpedeado (Preston, Encoraçados,
p. 49). Mesmo assim os canhões da força
afundaram oito destróeires e um submarino (posto
a pique por um hidroavião Swordfish do
encouraçado) alemães, no combate conhecido
como Segunda Batalha de Narvik.
A
importância das operações em águas
norueguesas, especialmente em Narvik, revelar-se-ia
nos meses posteriores. A Marinha alemã, já de
proporções modestas, perdera um cruzador
pesado, dois cruzadores leves, dez destróieres
(dos vinte e um com os quais iniciara a guerra) e quatro
submarinos, além de quatro navios maiores danificados
e imobilizados nos estaleiros. Quando se cogitou da
invasão da Grã Bretanha, ainda em 1940
e depois da queda da França, a Alemanha não
dispunha dos meios navais indispensáveis a uma
operação anfíbia daquele porte.
Entretanto,
a maior contribuição do Warspite para
a vitória aliada e derrota do Eixo ocorreu no
teatro do Mediterrâneo. Ali obteria seus maiores
sucessos, enfrentando a esquadra italiana e tomando
parte em todas as operações importantes.
Em
julho de 1940, tanto a frota britânica como a
italiana estavam no mar, protegendo comboios, quando
a primeira avistou a segunda. No encontro que se seguiu,
conhecido como Batalha da Calábria (ou de Punta
Stilo, como denominado pelos italianos) o Warspite travou
um duelo de artilharia com dois encouraçados
italianos, o Giulio Cesare e o Cavour e
seus canhões atingiram o alvo (o Giulio Cesare)
a 26.400 jardas (ou 25.000) de distância). Estabeleceu-se
assim um recorde ainda de pé - a maior distância
em que canhões navais acertaram um alvo móvel
(Preston, op. Cit., p.50).
No
ano seguinte, a Batalha do Cabo Matapan (ou da Ilha
Gaudo, para os italianos), situado ao sul da Grécia,
nos dias 28 e 29 de março, significaria provavelmente
o maior combate naval favorável à Royal
Navy no mediterrâneo. A batalha se originou
de uma tentativa da esquadra italiana de interceptar
navios de suprimento para tropas britânicas na
Grécia. Como os códigos alemães
e italianos tinham sido decifrados, o Almirante Andrew
Cunningham resolveu atacar a frota italiana. Inicialmente,
aeronaves do porta-aviões Formidable colocaram
dois torpedos no novo encouraçado italiano Vittorio
Veneto, que conseguiu escapar. Mas, em seguida,
os encouraçados Warspite, Barham e Valiant afundaram
dois cruzadores pesados italianos (Fiume e Zara)
e destróieres britânicos abordaram e puseram
a pique um terceiro (o Pola). Os italianos perderam
ainda dois contratorpedeiros. As baixas britânicas
resumiram-se a um piloto morto e um avião abatido.
Embora
não tenha sido decisiva, a vitória de
Matapan acarretou duas consequências importantes.
Por um lado, representou enorme incentivo para o moral
britânico. E, por outro, a marinha italiana tornou-se
mais prudente do que já era e, por excesso de
cautela, desperdiçou oportunidade de atacar
a Royal Navy, quando essa esta sujeita a constantes
bombardeios durante a batalha por Creta.
Em
maio de 1941, os alemães iniciaram a invasão
dessa ilha, principalmente por tropas aerotransportadas.
Mais uma vez encontrava-se o Warspite na linha
de frente, até ser atingido por uma bomba.
No
ano seguinte, deixou temporariamente o teatro de operações
do Mediterrâneo, transferido para o Oceano Índico.
Por algum tempo, serviu no Grupo A da Esquadra Oriental,
comandada pelo Almirante Somerville.
Em
1943, o encouraçado voltou ao Mediterrâneo,
fornecendo apoio aos desembarques anfíbios na
Sicília. Depois do armistício pedido
pela Itália, coube-lhe escoltar o grosso da
esquadra italiana até a Ilha de Malta. No mesmo
mês, quando bombardeava posições
inimigas em Salerno, foi nova e seriamente avariado
por uma bomba planadora alemã, que explodiu
junto a seu casco. A água invadiu suas caldeiras
e precisou-se rebocá-lo. Mesmo assim passou
pelo Estreito de Messina, chegando a Malta, de onde
ganhou a Grã Bretanha.
O Warspite só podia
operar com três eixos, perdendo assim olugar
na linha de batalha. Sua carreira, longa, vitoriosa
e gloriosa terminara no Mediterrâneo, mas não
na guerra. A 6 de julho de 1944, no Dia D, o veterano
da Jutlândia e de Matapan apoiava os desembarques
aliados na Normandia, amaciando as defesas costeiras
alemãs, ou seja, bombardeando as baterias do
litoral. A ação dos encouraçados
e cruzadores, naquela oportunidade, mostrou-se decisiva
para o êxito da operação anfíbia.
Com efeito, a vantagem do bombardeio naval é que
ele pode ser sustentado enquanto a munição
durar e sua nartureza metódica e repetitiva
tem um efeito pior sobre o moral inimigo que os ataques
aéreos ocasionais, por mais devastadores que
sejam (Preston, Cruzadores, p. 56). Provar-se-ia issso
nos dias posteriores ao Dia D. No dia 10 de junho,
um ataque britânico foi apoiado pelos canhões
do encouraçado Nelson, que, adernando
para aumentar o alcance das peças, atingia alvos
a 30 Km. No dia 11, o excelente tiro dos navios quebrou
o retorno ofensivo dos alemães (Cartier,
Raymond, A Segunda Guerra Mundial, v.2, p. 564).
Em
novembro, o Warspite voltou ao combate, protegendo
os desembarques em Flushing, possibilitando a tomada
de Walcheren, nos acessos para Antuérpia.
Com
o fim do conflito na Europa, o velho encouraçado
deixou o serviço ativo. Pode-se avaliar sua
contribuição para a vitória aliada
pelo número de condecorações:
das vinte e cinco distinções recebidas
desde 1596, quatorze o foram durante a II Guerra Mundial.
Conservá-lo,
convertendo-o em museu, como antes ocorrera com o HMS Victory de
Nelson, ou como sucedeu depois com o cruzador HMS Belfast,
teria sido apropriada homenagem ao veterano navio,
sua tripulação de 1.124 homens e à Royal
Navy, responsável pela segurança,
honra e bem-estar do Reino (como se afirma nos Artigos
de Guerra de 1666). Mas, lamentavelmente, vendeu-se
o navio em 1946. Quando rebocado, encalhou na costa
da Cornualha, sendo ali mesmo desmontado. Parecia que
o veterano encouraçado se recusava a ser transformado
em sucata.
Filatelicamente,
o Warspite figura em dois selos da Grã-Bretanha:
o primeiro, em série de cinco valores a respeito
do patrimônio marítimo britânico,
do ano de 1982, ao lado da efígie do Almirante
Cunningham (Yvert, 1051); o segundo, em série
de 1994, também com cinco valores, comemorativa
do desembarque aliado na Normandia (Yvert, 1763), com
o encouraçado amaciando as defesas costeiras.
Até
o ano de 1995, apenas um outro navio de guerra britânico
mereceu a honra de constar duas vezes em selos da Grã-Bretanha,
o Victory de Lord Nelson (Yvert, 256, de 1951
e 1049, na série mencionada sobre patrimônio
marítimo).
Em
selos de outros países, também se encontra
o velho encouraçado, como no de Gibraltar (700
do catálogo Yvert), lembrando os 50 anos do
desembarque na Normandia, parte de série emitida
em folha. Gana e Tanzania, na mesma ocasião,
prestaram homenagem ao Warspite (respectivamente,
Yvert 1634 e 1638). Nesses selos, o veterano também
aparece disparando seus canhões no curso do
mesmo desembarque.