Com
este título, José Leandro de Barros Pimentel
publicou, em 1962, um artigo dando conta da instalação,
naquele ano em São Paulo, de um serviço de
transporte de correspondência por ônibus intermunicipais
ou interestaduais.
Pimentel
informava que o novo serviço instituia, pela primeira
vez no Brasil, um "Correio Rodoviário".
Na
verdade, o Correio Rodoviário em São Paulo
era a execução prática, com relação
ao transporte rodoviário, do Decreto-Lei nº 3.326
de 3 de junho de 1941, em pleno governo Vargas, que instituiu
a obrigatoriedade do transporte de correspondência
por todas as empresas de transporte geral, publicado no
Diário Oficial da União, de 5 de junho do
mesmo ano.
Mas
muito antes disso, existiu um primeiro serviço de
correio rodoviário no país. Áureo
G. Santos em artigo publicado no "Bahia Filatélico",
em dezembro de 1954, relata a história de Antônio
Justino do Nascimento, então proprietário
de uma empresa rodoviária de transportes, denominada "Rede
Viação Seridoense", que desde 1922 fazia
a linha de Natal a Caicó, no Rio Grande do Norte,
com seus caminhões e mistos. Os "mistos" eram
caminhões adaptados para o transporte de passageiros
e cargas, muito comuns no Nordeste, naquela
época.
A
linha saía de Natal passando por Macaíba,
Bom Jesus, Serra Caiada, Santa Cruz, Campo Redondo, Currais
Novos ( nessa agência deixava as malas de Cerro Corá,
São Vicente e Flores ), Acarí ( nessa agência
deixava as malas de Cruzeta, São José do
Seridó e Equador ), Carnaúba dos Dantas,
Parelhas, Jardim do Seridó ( e a mala para Ouro
Branco ) e Caicó.
O
sr. Justino era solicitado, em todo o percurso, para transportar
cartas avulsas para as diversas cidades e localidades do
caminho. Percebeu então que não era certo
levar as cartas sem que o remetente pagasse a selagem.
Passou a comprar selos e ia selando as cartas que recebia.
Na falta de um carimbo inutilizava os selos com riscos
de lápis ou tinta. As cartas não procuradas
eram por ele entregue às agências de correio
das cidades do percurso.
Em 1933 recebeu autorização do Diretor Regional,
válida por 3 anos, para continuar conduzindo malas
de correio no trajeto de sua linha "mista". Em
1938, recebeu nova autorização que prorrogava
a "concessão", muito embora não tivesse
havido solução de continuidade no transporte
de malas.
Por
volta de 1939 o sr. Justino solicitou ao Diretor Regional
um carimbo para aplicar na correspondência. O Diretor
concedeu a autorização e forneceu os dizeres.
Por conta própria, Justino mandou confeccionar o
carimbo na mesma fábrica, situada à rua Felipe
Camarão, em Natal, que preparava os carimbos de
borracha dos Correios.
Justino
mandou fazer apenas um carimbo para o uso postal. Porém
utilizava-se de outro, de formato oval, para carimbar o
talonário de passagens. E frequentemente aplicava
o carimbo postal nos talões de passagens.
É
interessante notar que Justino prestava esse serviço
sem receber qualquer remuneração. Assim agia,
porque gostava de fazer algo que julgava útil e por
simpatizar com a tarefa de ser uma espécie de carteiro...
Não
se conhece qualquer carta obliterada com o carimbo do sr.
Justino, porém
Áureo G. Santos menciona a existência do carimbo
sobre um par de selos Fé e Energia (série Vovó,
200 rs, roxo).
Ainda
antes do Correio Rodoviário de São Paulo,
e já depois do Decreto Lei 3.326, foram usados dois
carimbos pela Agência da Turma Postal Rodoviária
instalada na Estação de Ônibus anexa à Feira
Permanente de Amostras de Belo Horizonte. Esta agência
era encarregada da fiscalização dos serviços
de transporte de correspondência por ônibus,
efetuados por força do citado Decreto Lei. Foram
usados a partir de 15 de agosto de 1941. Não se
tem informação sobre a duração
desta agência, mas se conhece uma carta obliterada
em 6 de março de 1945.
O
Decreto Lei 3.326, de 3 de junho de 1941, diz:
"Artigo
2º
. 1º - O transporte será, igualmente, obrigatório
e gratuito nas estradas de ferro, companhias ou empresas
de navegação ou de tráfego rodoviário
que gozem de tratamento especial, benefícios ou favores
da União, dos Estados e dos Municípios."
E
mais adiante:
"Artigo
6º"
. 2º - Nos ônibus, caminhões, ou outros
veículos a motor, utilizados no tráfego rodoviário,
a que se refere este artigo, quando conveniente ao serviço
postal, será
colocada, às expensas do Departamento dos Correios
e Telégrafos, caixa destinada à coleta, em
viagem, de cartas e cartões postais e, bem assim,
uma flâmula com o emblema do Serviço Postal
e as iniciais S.P."
Em
São Paulo, em 1962, coube ao Diretor Regional do
DCT, sr. Francisco Gonçalves Neto, por em execução
o que autorizava o Decreto, possivelmente para aproveitar
a expansão do transporte rodoviário, fruto
do desenvolvimento da indústria automobilística
implantada no governo Kubitschek e da deterioração
e decadência do transporte ferroviário nacional.
A
modalidade do serviço implantado permitia ao próprio
usuário postar sua correspondência nas caixas
coletoras existentes na porta de entrada dos veículos.
As cartas, naturalmente, deveriam estar seladas. Em chegando
o ônibus na cidade terminal da linha, lá
estava um funcionário do correio coletando a mala
ou as cartas e em seguida providenciando a distribuição
aos destinatários.
Somente
eram admitidas, como determinava o Decreto, cartas e cartões
postais, correspondência classificada como de "primeira
categoria", com porte simples e via de superfície.
Nada de pacotes, cartas aéreas, registradas ou qualquer
outro tipo.
O
serviço atendia somente às cidades iniciais
e terminais da linha de ônibus determinada. Não
transportava correspondência para cidades intermediárias.
Nestas, somente eram coletadas cartas destinadas às
cidades iniciais ou terminais da linha.
Para
a instalação e funcionamento do Correio Rodoviário
foi criada uma Agência Especial situada na Estação
Rodoviária de São Paulo, com um chefe e 14
funcionários, trabalhando das 5,30 horas da manhã até as
24 horas.
O
público podia se utilizar da Agência da Estação
Rodoviária para colocar suas cartas destinadas a
qualquer parte e a própria Agência se incubia
de fazer a distribuição pelos ônibus
competentes. Nas cidades do interior, as agências
de correio faziam o mesmo serviço. O usuário
podia, também, aguardar a passagem do ônibus
para postar sua carta. Quando postada na agência,
antes do ônibus sair, a carta era obliterada com
o carimbo da agência; porém, quando colocada
diretamente na caixa de coleta do ônibus, era obliterada
pelo carimbo da agência de destino.
A
partir de 3 de janeiro de 1962 foram inauguradas várias
linhas do Correio Rodoviário, todas partindo de
São Paulo. Foram elas:
Em 3 de janeiro: Lindóia, Águas de Lindóia,
Piracicaba, Rio Claro, Santos, São Vicente e Serra Negra;
Em 19 de janeiro: Marília e Garça;
Em 22 de janeiro: Pouso Alegre e Varginha (em Minas Gerais);
Em 8 de fevereiro: Atibaia, Bragança Paulista, Morungaba
e Amparo;
Em 5 de maio: Ribeirão Preto e Uberaba;
Em 11 de maio: São José dos Campos, Aparecida
do Norte, Guaratinguetá, Campos do Jordão e Paraisópolis
( em Minas Gerais);
Em 20 de julho: São João da Boa Vista;
Em 1 de agosto: Caraguatatuba, São Sebastião,
Ilha Bela e Ubatuba;
Nesta data também foram inauguradas as linhas intermediárias
de Taubaté a São Luiz do Paraitinga e Ubatuba
e São José dos Campos a Caraguatatuba e São
Sebastião.
O
Correio Rodoviário de São Paulo foi desativado
quando um novo Diretor Regional assumiu o posto, por volta
de 1963. Não se tem conhecimento de documentação
oficial à respeito.
Pimentel
cita a existência, até a data de seu trabalho,
de apenas cinco carimbos próprios para o serviço
rodoviário: São Paulo, Santos, Bragança,
Atibaia e Piracicaba. |