Este
trabalho foi publicado originalmente no catálogo
da Lubrapex 2000, realizada recentemente em Salvador
- BA
Em
1º de janeiro de 1900 foram postos à venda
os selos comemorativos do 4º Centenário do
Descobrimento do Brasil.
A
idéia de uma emissão de selos cuja venda
ajudasse nas despesas das festividades do Centenário
foi feita pela primeira vez por Paulo Rangel Pestana,
no "Jornal Philatelico", editado por M. Copenhagen
em São Paulo, em maio de 1897. Em artigos sucessivos
na revista, Rangel Pestana propunha ao governo que "uma
emissão de selos artísticos, bem cuidados
e concebidos, só por si bastaria para solenizar
brilhantemente a data inicial da civilização
do Ocidente na terra brasílica." E oferecia
como base de estudo um projeto que consistia de doze
selos comemorativos, treze inteiros postais (quatro cartões
postais, quatro envelopes, duas cartas bilhetes e três
cintas para impressos), além de outros dez selos
de taxa devida, todos eles com motivos nacionais que
iam de efígies de personalidades e quadros históricos
a produtos agrícolas e minerais, "resumindo
sob todas as faces o progresso nacional desde o tempo
do descobrimento até o presente." Rangel
Pestana enfatizava ser necessário a circulação
da emissão por tempo ilimitado, até seu
completo esgotamento. "Assim, de certo, não
merecerá a odiosa pecha de especulativa, que aponta à execração
dos filatelistas, uns tantos governos de nações." Sugeria
também a realização de um concurso
entre artistas e amadores para a escolha dos desenhos
dos selos e admitia até mesmo a impressão
no exterior, caso a Casa da Moeda não tivesse
condições satisfatórias para executar
o projeto.
Críticas
à idéia de Rangel Pestana não tardaram
a aparecer, principalmente no exterior. "The American
Journal of Philately"
viu no projeto "a única idéia de arranjar
provisão de renda para um tesouro esgotado." A "Revista
de la Sociedad Filatelica Argentina" disse que a emissão
seria destinada exclusivamente a arranjar recursos para
a exposição e os demais festejos. Convém
lembrar que naquela época eram intensas as reações
contra as emissões então chamadas especulativas
(abusivas, nos dias de hoje): longas séries incluindo
valores faciais altíssimos, emitidas por diversos
países, entre os quais Estados Unidos, Portugal
e suas colônias, Canadá, Grécia e outros,
além das emissões Seebeck feitas por Equador,
Honduras, Nicarágua e El Salvador. Existiu até
mesmo uma Sociedade para Supressão dos Selos Especulativos
(S.S.S.S.) que fazia campanhas contra essas emissões,
protestando junto aos governos emissores.
O
escritor Artur Azevedo, em artigo publicado no jornal
carioca "O País", em agosto de 1898,
citou a idéia de Rangel Pestana e, ecoando a sua
proposta, sugeriu uma grande emissão de selos
postais de todos os valores, que financiaria parte das
festas. Dizia ele que, "tendo em vista o mau estado
das finanças nacionais, este seria o meio de dar
a festa do Centenário sem gastar vintém."
Alphonse
Bruck, ou Alph. Bruck, como se assinava, negociante de
selos e editor da "Revista Filatélica do
Brasil" não tardou a contestar Artur de Azevedo,
dizendo que fora ele quem primeiro se ocupara desse assunto,
em artigo publicado em sua revista, em setembro de 1896.
Bruck, no entanto, era contrário à idéia
de se obter, com os selos, recursos para as comemorações.
O
governo brasileiro estava totalmente indiferente às
comemorações do Centenário. Em junho
de 1898, o próprio Diretor Geral dos Correios,
Emídio Adolfo Vitório da Costa, em ofício
ao Ministro dos Negócios da Indústria e
Viação, propôs uma emissão
especial de todas as fórmulas de franquia. Pedia
autorização para abrir concurso para os
desenhos e se justificava dizendo: "Além
da significação patriótica, aquela
emissão será não pequena fonte de
renda para o Correio." Não houve qualquer
resposta do Ministro.
Coube
à iniciativa privada, liderada por alguns oficiais
da Marinha, tomar a decisão de constituir uma Comissão
Especial incumbida de organizar o programa geral das comemorações,
em agosto de 1898.
O
projeto da Comissão Especial previa várias
festividades e os recursos necessários para promovê-las,
entre estes a emissão de selos comemorativos: "O
Governo Federal dará
curso a estes selos por período muito limitado,
sendo indenizado da renda do correio correspondente e das
despesas de custo da emissão, a qual será integralmente
entregue à Comissão, e outrossim permitirá serem
os selos carimbados. A venda destes selos, feita aos colecionadores
e a todos os que desejarem conservar uma lembrança
da comemoração do quarto centenário,
por preço sensivelmente superior ao custo, fornecerá outra
importante fonte de renda." Vê-se que a Comissão
Especial sugeria a circulação limitada dos
selos, contrariamente à idéia de Rangel Pestana,
a permissão de serem vendidos carimbados e ainda,
que o Correio seria ressarcido pelas despesas de confecção
da emissão e pelo valor dos selos usados na correspondência.
A
Comissão não tardou em enviar uma petição
ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados
pedindo os recursos previstos para as comemorações.
Depois de muita demora foi apresentada, pelo deputado
carioca Nilo Peçanha, futuro Presidente da República,
uma emenda ao Orçamento da República para
1899, que concedia à Comissão a emissão
dos selos. Aprovada a emenda e o Orçamento Federal,
a Lei nº 559
é finalmente sancionada pelo Presidente Campos Salles,
em 31 de dezembro de 1898. O seu artigo 15 autorizava a
emissão.
A
concessão feita, por lei federal, aos promotores
dos festejos do Centenário, de receber toda uma
emissão de selos para vender, teve uma enorme
repercussão nos meios filatélicos. Rangel
Pestana, em artigo publicado no "Estado de S.Paulo",
em março de 1899, lamentava a decisão de
se fazer uma emissão sem cunho oficial, de circulação
muito limitada, ou especulativa. E alertava para a decisão
do último Congresso Postal Universal, realizado
em Washington, em junho de 1897 e convertida em lei,
inclusive no Brasil: "Os valores postais emitidos
com um fim especial e particular ao país da emissão,
tais como os selos e cartões postais chamados
comemorativos, de um valor transitório, não
serão mais válidos no serviço internacional."
A
Comissão Especial, agora Associação
do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil,
alheia às críticas, resolveu levar a efeito
a emissão autorizada por lei, decidindo que seriam
emitidos 4 selos, formando a soma dos valores faciais
o número simbólico da data 1500 (100 réis,
200 réis, 500 réis e 700 réis).
Em
junho de 1899, em edital publicado em jornais cariocas,
foi aberto o concurso para escolha dos desenhos. Eram
convidados artistas residentes no país a apresentarem
desenhos para os motivos dos selos: O Descobrimento,
A Independência, A Abolição e A República.
O prêmio para cada um dos desenhos escolhido era
de 400$ mil réis e o prazo, muito curto, encerrava-se
em 30 de junho. Encerrado o prazo, a comissão
julgadora desclassificou os dois únicos desenhos
apresentados para o selo de 200 réis. Após
novo concurso, exclusivo para esse desenho, a comissão
divulgou o resultado dos vencedores:
- Selo
de 100 réis - Descobrimento
- Artista: Carlos Eckman - Pseudônimo: Mirim;
- Selo
de 200 réis - Independência
- Artista: T. da Silva - Pseudônimo: Chalaça;
- Selo
de 500 réis - Abolição
- Artista: Estevão Neiva - Pseudônimo:
Kama;
- Selo
de 700 réis - República
- Artista: Carlos de Servi - Pseudônimo: Timbira.
Em
ofício ao Diretor Geral dos Correios a Associação
comunicava o resultado do concurso dos desenhos, as dimensões
e cores dos selos e finalizava dizendo: "Tendo-se
de mandar gravar 400.000 coleções dos mesmos
selos no estabelecimento litográfico de Luís
Francisco de Pinho (antiga Casa Paulo Robin) sito à
rua da Assembléia, 44, que oferece garantias de
toda natureza, a Associação solicita de V.
Ex. aprovação dos desenhos, das dimensões
e das cores acima propostas..."
O
Diretor Geral dos Correios deu a sua aprovação
ao solicitado e a Associação fez o contrato
de impressão litográfica de 400.000 séries
com Luís Francisco de Pinho, pelo valor de 16:000$
contos de réis. Conscientemente ou não,
o Diretor Geral dos Correios violou o texto legal ao
permitir a impressão dos selos em estabelecimento
privado. O artigo 15 da lei nº 559 era muito claro
ao dizer que "a emissão será entregue
integralmente
à Comissão Central" e mais adiante: "A
Comissão indenizará o Estado"... "das
despesas do custo do fabrico da totalidade da emissão."
Com
data de 1º de dezembro de 1899, o Edital de lançamento
dos selos foi publicado no Diário Oficial pela
primeira vez no dia 3 de dezembro
e em mais seis edições, nos dias 5, 6,
17, 27, 30 e 31 de dezembro.
O
Edital
"DIRETORIA GERAL DOS CORREIOS.
Emissão Especial de Selos Comemorativos do Quarto
Centenário do Descobrimento do Brasil.
De
ordem do Sr. Diretor Geral e de acordo com o aviso
do Ministério da Indústria, Viação
e Obras Públicas, de 30 de novembro findo, e
de conformidade com a requisição da diretoria
da Associação do Quarto Centenário
do Descobrimento do Brasil, faço público
que no dia 1º
de janeiro próximo vindouro serão postos
em circulação os selos especiais das taxas
de 100, 200, 500 e 700 réis, comemorativos do Quarto
Centenário do Descobrimento do Brasil, emissão
autorizada pelo art. 15 da lei nº 559, de 31 de dezembro
de 1898.
A circulação desses selos, segundo o disposto
no parágrafo primeiro do art. 15 da lei já citada, é limitada
até
28 de fevereiro de 1900, sendo que depois desta data serão
eles retirados da circulação e considerados
nulos para o porteamento da correspondência.
Os selos ora postos em circulação só serão
empregados nas correspondências para o interior do
Brasil.
SELOS
DA TAXA DE 100 RÉIS
Os selos da taxa de 100 réis são de cor encarnada
e medem 37 milímetros de largura e 26 de altura.
Paisagem alegórica ao descobrimento do Brasil. Índias
nas pedras observam a aproximação de caravelas.
Cruz de Cristo no centro do selo.
Estes selos têm os seguintes dizeres: no alto - EE.UU.
DO BRASIL - à direita, dentro de um pórtico
- CORREIO - 100 RÉIS - 1500 - 1900 em tinta encarnada
sobre fundo branco, menos a das duas datas, que é também
encarnada.
SELOS
DA TAXA DE 200 RÉIS
Estes selos são de cor verde-escura sobre amarelo,
com as dimensões do já descrito. Quadro histórico
representando o Grito do Ipiranga e os dizeres em baixo:
- Independência ou Morte - em tinta verde sobre fundo
amarelo, Sete de Setembro de 1822 - em tinta branca sobre
fundo verde.
No selo há os seguintes dizeres: nos cantos superiores, à
direita - 1900 - e à esquerda - 1500; no alto, em
faixa curva - ESTADOS UNIDOS DO BRASIL - em segundo plano,
no meio das duas margens laterais - 200 RÉIS - todos
em tinta branca sobre fundo verde,
à exceção de - CORREIO - que é verde
sobre fundo amarelo.
SELOS
DA TAXA DE 500 RÉIS
Estes selos são de cor azul e medem 26 milímetros
de largura sobre 37 de altura. Alegoria à Abolição.
Um anjo despedaça os grilhões dos escravos.
Têm os seguintes dizeres em tinta branca sobre fundo
azul: no alto - EE.UU. DO BRASIL - em baixo, no centro
- CORREIO - e os seguintes, em azul sobre fundo branco:
à esquerda - 500 RÉIS - 28 Setembro 1871
- e à direita - 500 RÉIS - 13 Maio 1888;
em baixo, à esquerda - 1900 - e à direita
- 1500.
SELOS
DA TAXA DE 700 RÉIS
Estes selos são de cor verde, tendo as mesmas dimensões
dos de 500 réis. Alegoria à República.
A figura da República aponta com o braço
direito para a data - 15 de Novembro 1889 - no alto do
selo à direita. Em baixo, à direita, está o
escudo das armas da República, e o selo tem os seguintes
dizeres em tinta verde sobre fundo branco: no alto - ESTADOS
UNIDOS DO BRASIL - em baixo, à esquerda - 700 RÉIS
- e em tinta branca sobre fundo verde: no alto, à direita
- 1500 - à esquerda - 1900 - e em baixo, no centro
- CORREIO.
Sub-Diretoria
dos Correios, Capital Federal, 1º de dezembro
de 1899 - O Sub Diretor, J.C. de Miranda e Horta."
A
descrição dos selos no edital é bastante
confusa, ora adotando um critério no qual se leva
em conta a direita e a esquerda do observador (critério
topográfico), ora a direita e a esquerda do selo
descrito (critério heráldico). Dependendo
do selo descrito, ora usa um, ora outro e até ambos
ao mesmo tempo.
O Edital estipulava a validade dos selos somente no interior
do país, perfeitamente enquadrados no artigo 11
da Convenção Postal Universal de 1897, à qual
o Brasil aderira pelo decreto nº
3.170 de dezembro de 1898.
Após
prontos os selos foram destruídas as chapas litográficas
empregadas na impressão, em solenidade realizada
em 30 de dezembro de 1899, com a presença de várias
autoridades. Na ocasião foram distribuídas
aos presentes, pelos membros da Comissão, provas
em preto da emissão.
Impressos
os selos, a Associação tratou de distribuí-los
ao Correio, a quem enviou 30.000 séries, das quais
50 não eram destinadas à venda, mas à coleção
oficial. O Correio, por sua vez, recebendo os selos,
não demorou em remetê-los
às Diretorias Regionais.
A
Associação, procurando maior êxito
na venda dos selos, recorreu ao comerciante filatélico
Alphonse Bruck, com estrutura suficiente para o sucesso
da venda. Um contrato foi firmado e, entre outros itens,
estipulava: que Alph. Bruck seria o único encarregado
pelo serviço; que até 28 de fevereiro o
comerciante só
poderia vender os selos carimbados, e dessa data em diante,
novos ou carimbados
à vontade do comprador; que os selos só seriam
vendidos em séries e pelo preço de $1500
cada uma, nova ou carimbada; que a venda terminaria definitivamente
no dia 7 de setembro, sendo devolvidos
à Associação todos os selos que não
tivessem sido vendidos; que todos os selos não vendidos
até aquela data seriam queimados de modo solene...
O contrato indicava também os percentuais da comissão
escalonada que Alph. Bruck receberia pela prestação
dos serviços.
Ao
firmar o contrato com a Associação, Alphonse
Bruck já
se encontrava bastante doente, tanto que um dos itens do
documento permitia a sua transferência para a firma
Laemmert & Comp., comerciantes estabelecidos à rua
do Ouvidor, 86 e posteriormente à rua Moreira Cesar,
66. Com o falecimento de Bruck o contrato foi logo transferido
para o novo parceiro.
Das
400.000 séries impressas foram vendidas ou distribuídas,
até 7 de setembro de 1900, apenas 48.647 séries.
Os Correios venderam 24.589 séries e a firma Laemmert & Comp,
21.665 séries no Brasil e apenas 853 séries
no exterior.
Em
11 de maio de 1901, na sede da Alfândega, com a
presença do Ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho,
e de outras pessoas gradas, foram incineradas, como prometido,
300.000 das séries não vendidas.
Das
restantes 51.353 séries, sabe-se que 100 delas
foram vendidas posteriormente pela própria Associação.
As outras tiveram destino não declarado. Supõe-se
que foram lançadas no meio filatélico em
1935, determinando uma rápida queda na cotação
dos selos no mercado.
Legalmente
desmonetizados em 28 de fevereiro de 1900, os selos do
Centenário continuaram a portear cartas por anos
a fora, e o Correio além de tolerar a irregularidade,
ainda marcou novo prazo para o seu recolhimento: ficaram
tendo validade postal no prazo de seis meses, de 22 de
setembro de 1931 a 22 de março de 1932, no bojo
de um edital daquela data que anunciava a retirada de
circulação, dentro de seis meses, de selos
e fórmulas de franquias de várias emissões.